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O CAMINHO DOS DEUSES

Autor: Itsuo Tsuda

(Itsuo Tsuda nasceu no Japão em 1914, viveu e estudou na França entre 1934 e 1940 e ao retornar ao Japão estudou recitação Nô com o Mestre Hosada, seitai com o Mestre Noguchi e aikido com o Mestre Ueshiba. A partir de 1970 voltou a viver e a ensinar na Europa.)

É bem difícil de definir o que se chama de “shintoísmo”, palavra a palavra, o caminho dos deuses. Esta é uma denominação que foi forjada por necessidade de comparação com as outras formas de “crenças” que foram introduzidas no Japão, ao correr dos séculos. Originalmente, ela não existia. Era uma coisa tão natural para os japoneses primitivos que eles não sentiam necessidade de lhe dar um nome.
Foi a chegada do budismo, por volta do século VI, que mudou a situação. Este sofreu, no começo, oposições violentas de parte das pessoas que não queriam admitir os “deuses estrangeiros” sobre o solo japonês. Inventou-se então uma teoria segundo a qual se estabelecia uma correspondência entre os deuses japoneses e os inumeráveis budas que povoam a mitologia budista. Assim o budismo foi admitido no Japão, mas permaneceu por longo tempo limitado à aristocracia, que sabia ler os sutras traduzidos em chinês. A partir de então, o budismo instalou-se no Japão, em boa vizinhança com os deuses autóctones e é freqüente ver hoje, na mesma família, um altar shintoísta e um altar budista coexistindo sem provocar conflitos confessionais. O Japão acolheu outras formas de pensamento como o taoísmo e o confucionismo. Com exceção do cristianismo, que foi proibido do século XVII até a Restauração, durante dois séculos e meio, pelo shogunato Tokugawa, que via nele um perigo político proveniente do zelo dos missionários espanhóis em evangelizar o Japão, excluindo todas as outras crenças. Somente os holandeses, que não tinham mais do que intenções comerciais, foram autorizados a residir numa ilha perto de Nagasaki, durante esse período.
É possível conhecer o budismo intelectualmente, porque ele possui uma abundante literatura. Digamos por comparação que, se se pode percorrer a Bíblia do começo ao fim em um ou dois meses, seria necessário alguma coisa como sete a dez anos apenas para ler a coletânea dos sutras e das exposições teóricas.
Evidentemente, não é possível a todo mundo consagrar tanto tempo à leitura de uma literatura tão colossal. O budismo, diga-se, dá acesso a 84 000 escolas, interpretações e práticas diferentes. É de longe mais numeroso que a oposição entre o catolicismo e o protestantismo.
Foi a partir do século XII que o budismo começou a difundir-se entre a população iletrada, graças a Honen (1133-1212) e a Shinran (1173-1262) que preconizaram a invocação do buda Amida, buda do paraíso, do infinito e do eterno, como condição única para a salvação da alma, sem qualquer outro conhecimento.
Na mesma época, o zen, introduzido por Eisai (1140-1215) e Dogen (1200-1253), instalou-se entre os guerreiros, cuja vida encontrava-se em perigo a todo instante, porque o zen preconiza o não-eu, o não-pensar e desenvolve a intuição. “Furyu Moji”, sem palavrório inútil, diz o preceito zen. Paradoxalmente, entre as numerosas seitas budistas, foi o zen que produziu o maior número de escritos e de discussões. Continua-se a discutir sobre o nada, sobre o vazio mental.
O perigo com o zen é que, tentando realizar o vazio mental, enche-se a cabeça, ao contrário, com todos os tipos de idéias em conflito. É o que se chama de zenbyo, doença do zen, uma espécie de neurose. Hakuin (1685-1768), em seus primórdios, não escapou desse inconveniente.
Quanto ao que é chamado de shinto, o que sabemos nós? Os japoneses sabem que existe o shinto, porque eles vêem os templos dedicados a um deus, um pouco por toda parte. Mas quando se trata de explicá-lo, eles são, na maior parte do tempo, incapazes. Não há discussões teológicas, nem doutrina bem definida. Eles sabem que um templo shinto é um lugar sagrado e que é necessário purificar-se para entrar no recinto, lavando as mãos e enxaguando a boca com água. Eles sentem visceralmente a presença dos deuses, mas isso não vai mais longe.
É verdade que Mestre Ueshiba recitava o norito, invocação dos deuses, de tempos em tempos, em seu curso, e que ele utilizava palavras estranhas aos nossos ouvidos habituados ao vocabulário moderno. Era de tal modo incompreensível que as pessoas nem o escutavam mais. Eu mesmo tentei compreendê-lo, mas enfrentava dificuldades enormes.
Se devo resumir o que compreendi, ao correr dos anos, isto são as seguintes coisas:
1) Wake-mitama (emanação): Todos os seres são emanações de um Todo, de Ame-no-Minaka-nushi, do Deus centro. Nós somos todos Deus mesmo, em nossa essência. Fundamentalmente, nós nos identificamos com o Deus centro.
Nas religiões de revelação como o cristianismo ou o islamismo, a essência divina pertence exclusivamente a um só ser. Todos os outros são ovelhas ou carneiros que necessitam de um pastor ou de um guia espiritual.
2) Kotodama (vibrações): Todo o Universo é imaginado como repleto de sensações de vibrações.
Essas vibrações preexistem aos seres que têm percepção.
Assim, Mestre Ueshiba falava muitas vezes do kotodama da vogal “u”, por exemplo, que é uma vibração que jorra do ventre. Ele explicava as funções de todo o vocalismo, que eram no fundo muito simples, mas me era muito difícil compreendê-las, porque para mim não eram coisas habituais.
3) Ame-tsuchi no hajime (o começo do Céu e da Terra, do Universo): Quando do tama-no-hireburi, da vibração da alma, ele dizia “coloquem-se no começo do Universo”.
Para dizer a verdade, esta frase confunde.
Longe da noção astronômica que faz remontar ao começo do Universo, há bilhões e bilhões de anos.
Está-se no começo, aqui e agora. Entra-se assim em um Universo sagrado.
O aikido era, para Ueshiba, uma prática divina, e não um esporte ou um exercício físico, como hoje é concebido.
A pessoa se torna sacralizada ao executar os movimentos do aikido, porque se está então sobre a Ame-no-Ukihashi, a Ponte celeste flutuante. Não se trata, portanto, de um enfrentamento entre brutos.
- Em meu aikido, meu bokken, por exemplo, absorve todas as essências do Universo, do passado, do presente e do futuro, tudo é absorvido nessa espada. Ela absorve o Universo mesmo. Não há nem tempo nem espaço. A vida que começou há bilhões de anos continua a palpitar na espada. Eu, aí estou, eu que vivi na antigüidade, e eu que vivo agora, tudo aí está. A eterna vida continua a vibrar aí poderosamente (Takemusu Aiki, p. 36).
- Permaneço imperturbável, seja o que for que me façam, não importa quando. Não permaneço preso nem à vida nem à morte. Tudo é confiado a Deus. Não somente quando se pega a espada, mas sempre, deve-se liberar-se do apego à vida e à morte. Devemos viver, abandonando tudo nas mãos de Deus.
Em todo caso, essa não é uma linguagem de racionalistas. Para estes últimos, o bokken não é mais que um pedaço de madeira que podemos utilizar para bater em alguém, nada mais. Para Ueshiba, ele é sacralizado a partir do momento em que a vida aí penetra. A vida transcende o espaço e o tempo. Quando se observa a olho nu, não se vê diferença entre um simples bokken e um bokken sacralizado. Quando a vida não está aí, ele permanece um pedaço de madeira. Não é uma qualidade intrínseca estar sacralizado. Um braço, uma perna, ou um corpo, pode ser apenas um pedaço de carne, uma substância físico-química, se não está sacralizado. Pode-se dizer que esse abandono a Deus é uma versão shinto de “muga”, do não-eu.
- Mesmo que se compreenda a idéia, se não se chega a aplicá-la, estas são letras mortas, diz Ueshiba.
Compreender uma tal idéia, já não é fácil. Ela parece extravagante. Mas como se está acostumado a manipular os conceitos, é ainda possível que se a aceite, fazendo-se um pequeno esforço mental. Mas aplicá-la, isso é outra coisa.
Entre os civilizados, as pessoas não se ocupam senão dos aspectos dessacralizados da vida, e com um pouco de astúcia, pode-se chegar a fazer mudar as idéias.
- Este preto, senhora, é de fato mais branco que o branco.
Se isso é dito com um tom que faz subentender que “se você não compreende uma tal verdade, você é o último dos imbecis”, é-se forçado a admitir que isso seja verdade e termina-se por acreditar nela.
4) A técnica:
- É preciso ficar de pé sobre a Ponte celeste flutuante, tornando-se Ame-no-Minaka-nushi, ou o Buda Amida. É preciso que você se torne a luz que purifica o mundo.
A Terra já está formada e Kuni-Tokotachi, Deus do Mundo Eterno, aí se manifesta. Não há senão o Homem que não esteja ainda formado, porque ele está impregnado de máculas. As formas técnicas do aikido servem para nos preparar, desatando os nós. É necessário purificar os pecados e máculas das seis raízes (termo budista que designa os cinco sentidos e a atividade mental).
O aikido foi criado para a purificação de nós mesmos.
Se essa é sua idéia sobre o aikido, pode-se dizer que não há mais aikido hoje em dia: não há mais que a autodefesa, a cultura física ou o espetáculo. Ninguém fala da purificação.
- Não há mais dojo (lugar em que se pratica o Caminho), não há mais que kojo (fábricas).
E isso foi dito, já, em 1932.
5) O dojo:
O dojo não significa, hoje na França, nem mais nem menos que um ginásio onde os jovens treinam exercícios físicos.
Donde a necessidade de submetê-lo às regulamentações administrativas: a superfície, a altura do teto, os sanitários, os chuveiros, as saídas de segurança, o diploma, o grau, a faixa preta, etc.
Mas quando se escuta Ueshiba dizer que não há necessidade nem de dojo, nem de honras, nem de situação, nem de dinheiro, pergunta-se o que ele quer em seguida.
Pode-se chegar a confusões curiosas:
- Onde é o seu dojo?
- Entre o Céu e a Terra.
- Certo, mas quero saber onde exatamente.
- Em todo lugar e em lugar nenhum.
- Brincadeiras à parte, fica em que região, em que rua?
- Em mim mesmo e em você mesmo.
- Sejamos sérios.
- Eu sou sério.
- Você é um mau gozador, senhor. Você está zombando de mim.
Uma vez que se encontre engajado em duas orientações opostas, não há meio de se perceber: uma dirigida para a aquisição do poder, a dominação sobre os outros e a obtenção de eficácia, e a outra dirigida para a purificação, a unificação com o Universo e o abandono de si.
Volto à diferença que Ueshiba reconhecia entre Haku-no-budo, artes marciais motivadas pelos desejos físicos e Kon-no-budo, artes marciais da alma. Os primeiros visam a defender-se e a atacar e como, de uma parte e da outra, os adversários estão animados pelos mesmos desejos, há uma escalada de meios: a força física, a técnica eficaz, as armas sofisticadas. A situação atual: as bombas nucleares capazes de aniquilar a humanidade inteira e essa é a luta final. Porque não haverá mais adversários, nem de um lado nem de outro. Esse é o espírito de ai-uchi, de destruição mútua.
Após haver explicado as quatro modalidades do ki, isto é, gasoso, líquido, fluido e sólido ou duro, ele diz:
- No mundo do duro, é preciso um bu sólido. São necessárias armas, pois se busca entredevorar-se, lutar contra. No mundo de hoje, onde a matéria e o espírito estão em conflito, não se podem abolir os armamentos.
Mas no bu que se conforma ao espírito, com vistas a realizar o paraíso terrestre, verdadeiramente belo, não há técnica de assassinar. Conforme à providência natural e graças à gravitação exercida pela aliança da alma e do corpo, do kon e do haku, absorve-se no ventre todos os seres e procede-se à grande prática de purificação segundo seu próprio desejo. Eis o verdadeiro sentido do aikido.
“A Natureza nos ensina a nos entredevorar”, diz Anatole France.
A natureza, no Ocidente, é algo que se tenta submeter ao nosso controle racional. Isto a fim de triunfar sobre os outros. Para não se fazer devorar pelos outros.
Um tal espírito não data de ontem. Ele se reflete não só no modo de conceber o aikido, mas em tudo.
Não vou combater a convicção de cada um. Mas não vou me impedir de fazer minhas pesquisas interiores pessoais, que não dizem respeito senão a mim mesmo. Faço meu pequeno bom caminho. Sou livre.
Alguns buscam fortificar-se, tornar-se belos galos de briga, que são aliás a maioria e a quem a fórmula industrial, baseada nos mesmos princípios da cultura física, convém perfeitamente, fazendo “um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro”. No declínio da juventude, a partir dos quarenta anos, tornam-se donos de clubes e exercem sua autoridade.
Os outros, de tal modo minoritários que é preciso procurá-los com uma lupa, tentam fazer raiar a alma através do corpo, a exemplo de Mestre Ueshiba. Para estes últimos, não há limite de idade. Porque a alma pertence à eternidade.

(Traduzido do francês por Luiz Carlos Cintra, aluno do Instituto Takemussu, Dojo Central
Rua Mauro, 323 proximo ao Metro Saude, Aulas todos o dias as 7:00 10:00, 18; 19, 20:00 sabados as 9:00 e 16:00 e domingo pela manhã as 9:00 )
fonte: www.aikikai.org.br